
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) recomendou a inclusão do medicamento abemaciclibe no Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento do câncer de mama precoce com receptor hormonal (RH) positivo e receptor do fator de crescimento epidérmico humano 2 (HER2) negativo, em pacientes com linfonodo positivo e alto risco de recorrência. A decisão ocorre após consulta pública realizada entre 26 de agosto e 14 de setembro. Agora, o processo segue para análise da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Sectics).
O abemaciclibe é um inibidor de ciclina aprovado no Brasil para tratar o câncer de mama RH+/HER2- de alto risco. O medicamento, desenvolvido pela Eli Lilly do Brasil, demonstrou redução de 32% no risco de doença invasiva e de 32,5% no risco de recidiva à distância — resultados que não eram observados há mais de 15 anos. Atualmente, o abemaciclibe já é incorporado ao SUS para o tratamento em cenário metastático, embora ainda não esteja disponível para os pacientes.
“A recomendação final favorável da Conitec de abemaciclibe para o tratamento adjuvante do câncer de mama representa um avanço significativo na jornada das pacientes de alto risco, que embora tenham maior chance de evoluir para o cenário metastático, seguem o mesmo protocolo padrão das mulheres com baixo risco. É uma decisão eficiente e que preza pela equidade”, afirma Luiz André Magno, Diretor Médico Sênior da Lilly.
O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres no Brasil e no mundo. Globalmente, é a segunda principal causa de morte por câncer entre o público feminino. Somente no Brasil, em 2023, foram registrados 18.032 óbitos. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que, entre 2023 e 2025, serão diagnosticados mais de 73,6 mil novos casos da doença, o que representa 30,1% de todos os tipos de câncer em mulheres. Especialistas apontam que esse número deve crescer devido ao envelhecimento da população, mudanças no estilo de vida e avanços nos métodos de diagnóstico. Calcula-se que uma em cada oito mulheres possa desenvolver câncer de mama ao longo da vida.
Entre as pacientes com câncer de mama precoce RH+/HER2-, cerca de uma em cada três apresenta metástases em linfonodos — fator que aumenta significativamente o risco de recidiva e mortalidade. Além disso, cerca de 30% evoluem para doença metastática incurável dentro de cinco anos após o início do tratamento com terapia endócrina, impactando fortemente o sistema de saúde e a sociedade.
A publicação oficial da decisão no Diário Oficial da União (DOU) ainda é aguardada. Após esse passo, o Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas (PCDT) precisará ser atualizado — processo que pode levar pelo menos 180 dias.
“Essa incorporação está alinhada com os objetivos e prioridades da recém-publicada Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC), que busca garantir o acesso ao cuidado integral, melhorar a qualidade de vida das pacientes e reduzir a mortalidade associada ao câncer de mama”, completa Magno.
O diagnóstico precoce e o tratamento adequado representam não apenas benefícios para as pacientes, mas também economia para o sistema público de saúde. O tratamento do câncer de mama em estágio avançado no SUS pode custar até 10 vezes mais do que nas fases iniciais — com valores que variam de aproximadamente R$ 17 mil nos estágios precoces a R$ 356 mil em casos metastáticos.
Além do impacto financeiro, a doença tem consequências sociais profundas. Estudos indicam que quatro em cada dez mulheres deixam de trabalhar após o diagnóstico de câncer de mama, e cerca de 40% delas não retornam às atividades profissionais dois anos depois. Isso afeta diretamente a economia, já que as mulheres representam aproximadamente 46% da força de trabalho do país, chefiando 50,8% dos lares, incluindo 11,3 milhões de domicílios com mães solo.



