Padre Romeu Gusmão da Fonte morre aos 96 anos e deixa legado histórico de fé, serviço e amor à Igreja no Recife

Foto: Paulo Brito

Decano da Arquidiocese de Olinda e Recife, Monsenhor Romeu marcou gerações de fiéis com mais de sete décadas de sacerdócio, uma vida inteira dedicada à Paróquia da Torre e um testemunho que atravessa a história da Igreja em Pernambuco

A Arquidiocese de Olinda e Recife comunicou, na tarde deste domingo, o falecimento de Monsenhor Romeu Gusmão da Fonte, conhecido carinhosamente pelo povo como Padre Romeu. Segundo a publicação divulgada nas redes sociais da Arquidiocese e enviada à nossa reportagem, o sacerdote fez sua Páscoa às 16h20, ao canto da Salve Rainha, em um momento que já entra para a memória afetiva e espiritual da Igreja particular de Olinda e Recife.

A notícia causa profunda comoção entre fiéis, sacerdotes, religiosos e toda a comunidade arquidiocesana. Padre Romeu não era apenas um nome respeitado no clero. Era uma presença viva da história da Igreja em Pernambuco, um pastor identificado com o povo, com a liturgia, com a caridade e com a missão de servir. Até recentemente, seguia reconhecido como decano do clero da Arquidiocese de Olinda e Recife e permanecia ligado à Paróquia de Nossa Senhora do Rosário e Santa Luzia, no bairro da Torre, onde construiu a parte mais marcante de sua caminhada sacerdotal.

Nascido em 13 de maio de 1929, Monsenhor Romeu chegou aos 95 anos em 2024 e ultrapassou a marca de 70 anos de ministério sacerdotal, celebrados em junho do mesmo ano. A longevidade impressiona, mas o que mais chama atenção em sua trajetória é a constância. Padre Romeu atravessou décadas mantendo o mesmo espírito de pastor, o mesmo zelo pelo altar e a mesma proximidade com o povo de Deus.

A história sacerdotal de Padre Romeu começou oficialmente em 20 de junho de 1954, quando foi ordenado sacerdote. Depois da ordenação, passou por Afogados e, em seguida, foi designado para Paudalho, onde permaneceu entre 1955 e 1958. Naquele mesmo ano, assumiu a Paróquia da Torre, substituindo o Padre Amaury. Em 1961, foi nomeado Vigário Ecônomo e, logo depois, Vigário, função equivalente ao que hoje se entende como pároco. Desde então, sua história se confundiu com a da própria comunidade da Torre.

Foi justamente no bairro da Torre que Padre Romeu construiu um dos capítulos mais fortes do seu legado. Ali, não se limitou ao trabalho sacramental. Atuou diretamente em obras sociais, ajudou a viabilizar a criação da Vila Santa Luzia e, com a irmã Paula Frassinetti, participou da criação de um centro comunitário que se tornou referência de serviço à população. Ao longo dos anos, sua atuação foi além dos muros da igreja, alcançando famílias inteiras em suas necessidades humanas e espirituais.

O reconhecimento a essa trajetória veio em diferentes momentos. Em maio de 2005, recebeu o título de Monsenhor, no grau de Prelado de Honra de Sua Santidade. Dez anos depois, em 2015, recebeu uma bênção apostólica especial do Papa Francisco pelos 60 anos de ordenação sacerdotal. Em 2023 e 2024, também foi homenageado publicamente por sua história de vida e de serviço, inclusive pela Câmara Municipal do Recife, que destacou sua condição de decano do clero e o impacto da sua missão sobre gerações de recifenses.

Padre Romeu também ficou conhecido pela força de sua presença pastoral. Ele preferia ser chamado simplesmente de Padre Romeu e trazia como lema sacerdotal “Animam pro ovibus”, expressão que significa “a vida pelas ovelhas”. O lema traduz com fidelidade a forma como viveu. Seu ministério era descrito por quem o conhecia como simples, acolhedor, zeloso e profundamente comprometido com a Eucaristia, com a pregação e com a devoção mariana.

A dimensão do seu pastoreio pode ser medida também por números e marcas concretas. Ao longo de sua vida sacerdotal, batizou dezenas de milhares de fiéis, acompanhou gerações inteiras e transformou a Paróquia da Torre em referência não apenas pela estrutura física, mas pela vida pastoral atuante e pela resposta aos anseios da sociedade.

Mais do que funções e homenagens, Padre Romeu deixa uma herança espiritual. Sua vida foi acompanhada por fiéis que cresceram ouvindo suas homilias, recebendo seus conselhos, celebrando com ele os sacramentos e encontrando, em sua figura serena, um sinal de firmeza e ternura. Em diversas homenagens, ele foi descrito como homem simples, discreto, conselheiro, orante e profundamente feliz em viver a vocação sacerdotal.

Para a Rádio Olinda, emissora da Arquidiocese de Olinda e Recife, a partida de Monsenhor Romeu tem um peso ainda mais íntimo. Sua história não pertence apenas aos registros institucionais. Ela faz parte da memória viva da Arquidiocese, da evangelização e da caminhada de um povo que encontrou nele um sacerdote de altar e de rua, de oração e de ação, de palavra mansa e fé firme.

Ainda segundo o comunicado divulgado pela Arquidiocese, os detalhes sobre os ritos fúnebres seriam informados posteriormente. A expectativa é de que a despedida reúna uma multidão de fiéis, religiosos e amigos, como expressão do amor e da gratidão por um sacerdote que atravessou gerações deixando marcas profundas no coração da Igreja pernambucana.

Neste momento de dor, a Arquidiocese de Olinda e Recife se une em oração, confiando que aquele que gastou a vida servindo ao Evangelho agora encontre, no coração do Bom Pastor, o descanso prometido aos servos fiéis. Padre Romeu partiu ao canto da Salve Rainha. E isso diz muito sobre quem ele foi: um homem de Deus, conduzido pela fé, pela ternura mariana e pela esperança da ressurreição.

Que sua memória permaneça viva não só nas paredes da paróquia que ele amou, mas na fé de cada pessoa que aprendeu com ele que servir a Deus vale uma vida inteira.