Papa Leão XIV defende vida desde a concepção e cobra proteção a vítimas de abusos durante discurso histórico na Espanha

Pontífice voltou a condenar aborto e eutanásia enquanto governo espanhol avança proposta para incluir o aborto na Constituição; discurso também abordou abusos na Igreja e proteção de pessoas vulneráveis

Foto: Alessandra Tarantino/Pool via REUTERS

O Papa Leão XIV reafirmou a posição da Igreja Católica em defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural durante um discurso histórico ao Parlamento da Espanha, em Madri. A fala ocorreu em meio ao debate político sobre a proposta do governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez de incluir o direito ao aborto na Constituição espanhola. O pronunciamento também trouxe um forte apelo por justiça às vítimas de abusos cometidos por membros do clero e por mecanismos mais eficazes de proteção a crianças e pessoas vulneráveis.

Em sua intervenção, considerada histórica por ser a primeira vez que um pontífice discursou diante das Cortes Gerais da Espanha, Leão XIV afirmou que toda vida humana deve ser reconhecida e protegida “desde a concepção até a morte natural”, reforçando a doutrina católica sobre temas como aborto e eutanásia. Segundo o Papa, a grandeza moral de uma nação é medida pela capacidade de proteger os mais frágeis e vulneráveis da sociedade.

A declaração acontece em um momento de forte debate político no país. O governo liderado por Pedro Sánchez vem articulando uma reforma constitucional para garantir explicitamente o direito ao aborto na Carta Magna espanhola. A proposta ainda precisa passar por ampla tramitação parlamentar e exige maioria qualificada para ser aprovada.

Além das questões relacionadas à defesa da vida, o Papa dedicou parte de sua agenda na Espanha ao enfrentamento dos abusos sexuais dentro da Igreja Católica. Em encontros com bispos e sobreviventes, Leão XIV classificou os abusos como uma “chaga” que exige respostas concretas baseadas na escuta, na verdade, na justiça, na reparação e na prevenção.

Durante a visita, o pontífice reuniu-se com vítimas de abusos cometidos por religiosos e ouviu relatos pessoais sobre os impactos dos crimes e sobre a necessidade de reformas nos mecanismos de proteção. O encontro foi visto como um gesto de aproximação da Santa Sé com os sobreviventes, embora alguns grupos de vítimas tenham defendido medidas ainda mais amplas de reparação e responsabilização.

No discurso ao Parlamento, Leão XIV também abordou outros temas globais, como migração, conflitos internacionais, inteligência artificial e a crescente polarização política. O Papa alertou para o que chamou de uma “profunda crise espiritual e cultural” no mundo contemporâneo e defendeu o fortalecimento do diálogo, da justiça social e da dignidade humana como caminhos para a construção da paz.

A visita papal ocorre em um contexto de relações mais próximas entre a Igreja Católica e o governo socialista espanhol, apesar das divergências em pautas como aborto, eutanásia e questões familiares. Ainda assim, a defesa da vida e o combate aos abusos surgiram como alguns dos temas centrais da passagem de Leão XIV pelo país.

O discurso teve ampla repercussão entre lideranças políticas, religiosas e organizações da sociedade civil em toda a Europa, reacendendo debates sobre bioética, direitos humanos, liberdade religiosa e proteção de vítimas de violência. Ao final da sessão, o Papa recebeu uma longa salva de aplausos dos parlamentares presentes.