Por Pe. Veridiano Quirino
O exorcismo é um dos temas mais cercados por curiosidade, medo e até fantasias dentro e fora do ambiente religioso. Filmes, séries e histórias populares ajudaram a construir uma imagem dramática desse rito, muitas vezes distante da forma como a Igreja Católica realmente o compreende. Para a Igreja, entretanto, o exorcismo não é espetáculo, nem uma prática que possa ser realizada livremente por qualquer pessoa.

Na tradição católica, o exorcismo é um sacramental destinado a pedir, em nome de Deus e da Igreja, a libertação da ação do maligno. Por sua natureza, possui regras específicas e exige discernimento. Nem todo Padre pode realizar um exorcismo: o rito depende de autorização expressa do Bispo ou do Ordinário e deve ser realizado de acordo com as normas e o ritual estabelecidos pela Igreja.
Essa distinção também ajuda a compreender a diferença entre exorcismo e as chamadas orações de libertação. Uma oração de libertação pode ser feita por leigos e não possui o mesmo caráter oficial do rito do exorcismo. Já o exorcismo pertence ao ministério específico confiado pela autoridade da Igreja a um Sacerdote autorizado.
Mas talvez uma das questões mais importantes esteja justamente antes do exorcismo: como saber se uma situação é realmente de natureza espiritual? O discernimento exige muita prudência. De acordo com Padre Veridiano Quirino da Silva, Sacerdote Exorcista da Arquidiocese de Olinda e Recife, é necessário considerar também possíveis causas físicas, psicológicas ou psiquiátricas. Por isso, avaliações médicas e de saúde mental podem fazer parte desse processo, além da escuta cuidadosa da pessoa e de seus familiares.
A preocupação em fazer essa distinção é fundamental. Uma pessoa em sofrimento pode interpretar determinadas experiências como manifestações espirituais quando, na realidade, precisa de acompanhamento médico ou psicológico. Por isso, a Igreja não deve transformar todo sofrimento ou comportamento incomum em uma suposta ação do demônio.
Outro ponto de atenção está nas práticas relacionadas ao ocultismo. Magia, adivinhação, invocação dos mortos, pactos e outras práticas dessa natureza são incompatíveis com a fé cristã. Para Padre Veridiano, o caminho do católico não é experimentar ou desafiar aquilo que a própria fé orienta a evitar, mas permanecer próximo de Deus.
E o medo do demônio? Para o Sacerdote, essa não deve ser a atitude central do cristão. A vida de fé passa pela vigilância, mas sobretudo pela confiança em Deus. A oração, o Santo Rosário, a participação na Missa, a Eucaristia, a Confissão e uma vida afastada do pecado fazem parte desse caminho.
Nesse sentido, o exorcismo não ocupa o centro da espiritualidade católica. O centro é Cristo. Diante de uma pessoa que acredita estar sofrendo uma ação do maligno, a orientação é procurar inicialmente um Sacerdote, que poderá acompanhar o caso e, se necessário, encaminhá-lo a um Exorcista.
Padre Veridiano também chama atenção para uma realidade pouco retratada nas produções cinematográficas: o exorcismo não acontece como nos filmes. Não se trata de uma disputa de poderes ou de uma cena de terror, mas de um ministério que exige autorização, prudência, discernimento e fidelidade às orientações da Igreja.
Mais do que alimentar o medo ou a curiosidade sobre o demônio, compreender o exorcismo ajuda a recordar uma dimensão essencial da fé católica: o cristão é chamado a buscar a Deus, viver na graça e recorrer aos Sacramentos. E, diante de situações que ultrapassem aquilo que consegue compreender, deve procurar ajuda com responsabilidade, sem abandonar os cuidados médicos e psicológicos necessários.
Sobre o autor
Padre Veridiano Quirino da Silva, presbítero diocesano, 41 anos, é Sacerdote há sete anos. Foi nomeado Sacerdote Exorcista da Arquidiocese de Olinda e Recife em 2024, por Dom Paulo Jackson. É membro da Pastoral Presbiteral, Pároco da Paróquia São José Operário, no Cabo de Santo Agostinho, e Vigário Episcopal do Vicariato Cabo.




